Vidas Secas: O vale da morte da Inovação em Saúde, à brasileira
- 16 de jul.
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Nos últimos dias, depois que escrevi sobre o PNIRS, recebi a mesma pergunta de fundadores, pesquisadores e investidores, formulada de maneiras diferentes: e o dinheiro, onde está o dinheiro? Ouvi isso de gente que conheço há anos, gente que construiu boa ciência dentro de universidade, abriu empresa, venceu um edital, e depois viu o projeto travar não por falha técnica, mas por falta de um próximo passo. É sobre esse próximo passo que quero escrever, porque nele mora a contradição mais importante e menos discutida da nossa política de inovação em saúde.
O Brasil voltou a colocar um volume relevante de recursos públicos na inovação. A segunda rodada do programa Mais Inovação Brasil reúne R$ 3,3 bilhões em recursos não reembolsáveis, dos quais R$ 300 milhões reservados especificamente à saúde, com projetos de terapias avançadas podendo chegar a R$ 30 milhões cada.
A primeira rodada, de 2024, já havia contratado cerca de R$ 250 milhões em projetos do setor. A Finep passou a tratar de forma explícita o apoio à pesquisa clínica de fase 1 e 2 e, ao lado do BNDES e da Fundação Butantan, estruturou o FIP Saúde, um fundo de investimento em participações com capital mínimo de R$ 200 milhões, dedicado a empresas de base tecnológica do complexo econômico-industrial da saúde, cujo gestor já foi selecionado em 2025. No papel, os instrumentos se multiplicaram. O problema é que multiplicar editais não é o mesmo que criar continuidade.
O sistema brasileiro de fomento ainda funciona, na prática, como uma coleção de largadas. Cada chamada financia um projeto, uma etapa, uma instituição, mas quase nenhum instrumento acompanha uma tecnologia ao longo de toda a sua trajetória. Para uma biotech ou deep tech de saúde, isso significa vencer uma seleção, executar o projeto e, ao fim, voltar praticamente ao ponto de partida institucional, procurando outra fonte, sob outras regras, disputando de novo recursos que não têm relação com o avanço já conquistado. O país aprendeu a dar o tiro de largada. Ainda não aprendeu a sustentar a corrida.
No vale da morte, a seca não começa na estiagem
Reli, há poucas semanas, Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Voltei ao livro por acaso, mas ele não me largou enquanto eu pensava neste texto, porque a tragédia de Fabiano e sua família não acontece num único golpe. Ela se acumula no intervalo, no espaço entre a última chuva e a próxima, quando já se perdeu o que se tinha e ainda não há condições de reconstruir.
Guardadas todas as diferenças entre o drama humano do romance e o problema econômico de que trato aqui, é essa imagem da travessia que melhor descreve o que vejo acontecer com a inovação em saúde brasileira. Boa parte dos projetos não morre por má ciência no início. Morre no meio do caminho, sem capital, sem infraestrutura e sem orientação regulatória para chegar até a margem em que investidores e parceiros industriais enfim topam assumir o risco.
Esse intervalo tem nome consagrado na literatura internacional, o vale da morte. É o espaço entre a validação de um conceito em laboratório e o momento em que a empresa consegue atrair capital de risco relevante, um percurso que em saúde costuma levar de seis a dez anos e custar caro. Estudos não clínicos, desenvolvimento analítico, produção de lotes, toxicologia, documentação regulatória e ensaios clínicos iniciais não são extensões naturais da pesquisa acadêmica. Exigem competências, governança e volumes de capital de outra ordem. E é exatamente aí, nesse trecho mais caro e mais arriscado, que o funil brasileiro se estreita cedo demais. A pergunta que todo fundador de healthtech acaba fazendo, mais cedo ou mais tarde, é a mesma que Fabiano fazia olhando o céu: ainda vem chuva, ou já é hora de recolher o que sobrou e partir?
A FAPESP acertou a lógica, mas não pode carregar isso sozinha
Seria injusto dizer que o Brasil não tenta. O programa que mais se aproxima de uma política pensada por estágios de maturidade é o PIPE, da FAPESP, e vale reconhecê-lo. Em 2026, a Fundação lançou o PIPE Jornada Tecnológica Saúde, com até R$ 25 milhões e apoio de até R$ 2 milhões por projeto, apresentado explicitamente como porta de entrada para uma trilha de desenvolvimento. Em paralelo, o Auxílio à Inovação Regular passou a apoiar projetos acadêmicos com até R$ 600 mil por três anos, com o propósito declarado de elevar sua maturidade e facilitar licenciamentos e spin-offs que depois possam acessar o próprio PIPE. A lógica é a correta, criar instrumentos distintos, porém conectados, para que o conhecimento avance da universidade para a empresa e da empresa para o mercado.
Mas a FAPESP esbarra em dois limites que nenhuma reorganização interna resolve, e é importante nomeá-los sem rodeios. O primeiro é territorial. Trata-se de uma fundação estadual, financiada por parcela da arrecadação de São Paulo, cujos editais exigem que empresa, pesquisador responsável e equipe estejam sediados e atuem em território paulista. É um desenho excelente para quem está em São Paulo e, na prática, inexistente para o restante do país, onde as fundações estaduais equivalentes costumam operar com orçamentos muito menores e menos previsíveis.
O segundo limite é de escala. Aportes de até R$ 2 milhões validam uma plataforma ou um protótipo, mas em projetos farmacêuticos e de terapias avançadas não bastam, sozinhos, para custear o desenvolvimento não clínico completo, a preparação regulatória e a validação clínica inicial. A FAPESP prova que o Brasil sabe desenhar a trilha certa. O que falta, mesmo para as empresas paulistas, é conectar essa trilha a degraus de capital mais altos e reproduzir sua lógica, com os ajustes necessários, em escala nacional.
Três países, três respostas ao mesmo problema
Não estamos diante de um enigma sem solução. Outros países enfrentaram exatamente esse vale, e compensa olhar para três respostas diferentes, porque cada uma ilumina uma parte do que nos falta.
O Reino Unido optou por fomento contínuo amarrado a investidores. O Biomedical Catalyst, criado em 2012 como parceria entre a Innovate UK e o Medical Research Council, tem orçamento de £140 milhões no ciclo atual e opera de forma permanente, com rodadas sucessivas que vão de estudos de viabilidade a projetos maiores, próximos da avaliação clínica, incluindo uma modalidade que combina o recurso público a investimento privado alinhado. O dado que torna esse desenho difícil de refutar é o resultado medido: avaliações de rodadas anteriores mostraram que cada £1 de recurso público alavancou mais de £5 de capital privado em até dois anos, e antecipou a chegada ao mercado em cerca de 18 meses. Não é retórica, é métrica. O papel do Estado ali é reduzir o risco técnico e, ao mesmo tempo, aproximar a empresa de quem vai financiá-la, regulá-la e comprá-la na etapa seguinte.
Israel escolheu um caminho diferente, usar dinheiro público para fazer nascer, e depois sustentar, um mercado privado de capital de risco. O Fundo Yozma original, dos anos 1990, é creditado como o gatilho de toda a indústria de venture capital israelense, que em poucos anos se tornou inteiramente privada, sem participação estatal, e assim permaneceu por mais de duas décadas. Diante de um novo aperto de capital, o país relançou o modelo em 2024 como Yozma 2.0, com cerca de US$ 154 milhões de recursos públicos desenhados para mobilizar mais de US$ 670 milhões em investimento total.
A mecânica é elegante e vale ser entendida com precisão: para cada dólar que uma instituição investe num fundo de venture capital, a autoridade de inovação acrescenta cerca de 30 centavos e, se o fundo dá certo, abre mão de sua parte no lucro, deixando todo o retorno para o investidor institucional. O Estado não escolhe empresas nem interfere na decisão dos gestores. Ele apenas altera a relação entre risco e retorno para que o capital privado entre em terrenos onde, sozinho, não entraria. E, desde 2025, há um braço dedicado a deep tech, incluindo saúde, exatamente as áreas de maior intensidade científica e maior prazo de maturação.
O exemplo mais recente vem dos Estados Unidos e ataca outro flanco do problema, o desperdício de esforço isolado. Em 9 de julho deste ano, a ARPA-H anunciou até US$ 160 milhões, o equivalente a mais de R$ 800 milhões pelo câmbio atual, para o programa THRIVE, voltado a doenças genéticas raras, cerca de 95% das quais ainda não têm tratamento aprovado. O ponto notável não é o valor, é o desenho. Em vez de financiar sete equipes para desenvolverem sete tratamentos separados, cada um erguendo do zero sua própria tecnologia, documentação e ensaio clínico, o programa exige que todas construam plataformas modulares capazes de testar múltiplos tratamentos, para múltiplas doenças, dentro de um único ensaio guarda-chuva, com metas explícitas de ano um, ano três e ano cinco. É uma arquitetura pensada, desde o primeiro edital, para atravessar o vale inteiro, e não apenas para financiar a caminhada até a beira dele.
O que falta ao Brasil não é dinheiro, é desenho
Reunidos os três exemplos, fica claro que o Brasil não parte do zero, e insistir que partimos seria injusto e falso. Temos subvenção econômica robusta, uma linha nacional nascente de pesquisa clínica, o desenho já correto do PIPE em São Paulo, um fundo de participações dedicado à saúde estruturado por BNDES, FINEP e Butantan, instituições científicas capazes de operar infraestrutura de altíssima complexidade, e agora o PNIRS, que reconhece a necessidade de bancar tecnologias de maior risco. Temos as peças. O que não temos é o sistema que as conecta.
Um desenho maduro precisaria costurar essas peças em quatro pontos. Precisaria de uma trilha de financiamento orientada por maturidade tecnológica, em que um projeto aprovado hoje tenha acesso previsível, ainda que condicionado a metas, ao degrau seguinte, em vez de recomeçar a cada edital.
Precisaria de um mecanismo de coinvestimento especializado em ciências da vida, nos moldes do Yozma, capaz de atrair além do capital, gestores que entendam de fato de desenho clínico, propriedade intelectual e estratégia regulatória, e não capital generalista à cata de retorno rápido, o que em biotecnologia é quase uma contradição. O Brasil já ensaiou esse instrumento com o FIP Saúde, o que é uma boa notícia, mas o fez de forma ainda pontual e sem a especialização setorial profunda que o modelo israelense pressupõe, e o desafio agora é ampliar e aprofundar o que já começou, não inventar do zero.
Precisaria integrar a ANVISA e os centros de pesquisa clínica ao próprio desenho dos programas de fomento, para que nenhuma empresa descubra, só ao fim do financiamento, que seus estudos não servem ao caminho regulatório. E precisaria de uma estratégia territorial verdadeira, para que os instrumentos nacionais não reproduzam, em escala federal, a mesma concentração regional que hoje limita a própria FAPESP.
A chuva que ainda não aprendemos a guardar
Há uma diferença decisiva entre a seca do sertão de Graciliano Ramos e a seca de capital que descrevo aqui. A do romance é imposta pela natureza. A nossa é inteiramente construída por nós, e por isso pode ser desfeita por nós.
A Nova Indústria Brasil colocou a saúde entre seus pilares mais estratégicos, e o volume de recursos cresce de verdade, o que merece reconhecimento honesto. Mas dinheiro sem desenho de continuidade tende a reforçar aquilo que já sabemos fazer, financiar o começo, sem resolver o que ainda não sabemos, financiar a travessia. Reino Unido, Israel e Estados Unidos deram três respostas distintas à mesma pergunta, e nenhuma precisa ser copiada ao pé da letra. O princípio comum entre elas, porém, é um só: inovação em saúde não se sustenta com eventos isolados de financiamento, exige continuidade, especialização e coordenação. Sem isso, seguiremos assistindo boas ideias brasileiras secarem no meio do caminho, não por falta de chuva na largada, mas por falta de reservatório para chegar até a próxima estação.
Aqui no Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS, acompanhamos de perto essas lacunas entre o que a ciência brasileira já consegue produzir e o que o capital, a regulação e a política industrial ainda precisam estruturar para sustentá-la. Se esse tipo de reflexão for útil para o seu trabalho ou para a sua instituição, ficaremos felizes em conversar.

por Marcio de Paula
Fundador do Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS, com mais de 25 anos de experiência em ciências da vida, passou por posições de estratégia e inovação em empresas como Biolab e Ferring Pharmaceuticals, fundou a Rede Brasileira de Inovação Farmacêutica e integra conselhos de inovação em saúde no Brasil. Escreve sobre os caminhos da inovação radical em saúde e sobre como conectar ciência, indústria e política pública.




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