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Quem assume o risco da inovação quando a indústria farmacêutica não o faz?

  • há 3 dias
  • 6 min de leitura
Risco da inovação farmacêutica

No primeiro semestre de 2026, farmacêuticas e empresas de inteligência artificial anunciaram catorze grandes acordos somando pelo menos US$ 23,6 bilhões em valor potencial, segundo levantamento do analista Oliver Sprague Kelly. A leitura que se espalhou foi que a indústria farmacêutica está apostando pesado em inovação radical.


Passei boa parte de vinte e cinco anos de indústria em ambientes onde acordos assim são discutidos e aprovados, e quem viveu isso aprende a ler o anúncio de trás para frente, começando pelo pagamento à vista. No maior deles, entre Lilly e Insilico Medicine, o valor anunciado foi de até US$ 2,75 bilhões e o pagamento de entrada, de US$ 115 milhões, ou 4,2%. Não é exceção: nas parcerias de descoberta de fármacos com IA, os pagamentos de entrada têm ficado, em média, em torno de 2% das cifras de manchete, numa razão de cerca de 50 para 1 entre o prometido e o transferido.


Isso não é má-fé, é desenho fiduciário correto diante de risco tecnológico alto, e eu mesmo já defendi estruturas assim. Mas significa que a indústria farmacêutica não está assumindo o risco da inovação radical. Está comprando, barato, o direito de aproveitá-lo se der certo.


A pergunta que interessa, então, é quem assumiu? E a resposta, que quase não se discute por aqui, é que foi o estado.


O dinheiro que fez a Insilico existir

Em agosto de 2022, a Insilico Medicine fechou uma rodada Série D2 liderada pela Prosperity7 Ventures, o fundo de crescimento da Aramco Ventures, braço de investimento da petroleira estatal saudita, elevando a Série D total a US$ 95 milhões. O capital foi destinado ao avanço do pipeline, à construção de um laboratório de descoberta totalmente automatizado, a uma fábrica de dados biológicos e à criação de centros regionais. O programa principal da empresa estava, naquele momento, em Fase 1.


Vale reter as datas. Capital de origem estatal bancou a operação da Insilico em 2022, quando a empresa estava em estágio inicial, sem nenhum ativo aprovado e sem nenhuma garantia de que sua plataforma funcionaria. A Lilly chegou quase quatro anos depois, em março de 2026, pagando 4,2% de entrada por uma opção sobre ativos ainda pré-clínicos. Entre um momento e outro, alguém carregou o risco tecnológico. Não foi a farmacêutica.


E o vínculo com estratégia nacional é explícito, não incidental. Sob o Vision 2030, o governo saudita tem foco declarado em desenvolver seu setor de tecnologia, com cerca de US$ 20 bilhões destinados apenas a inteligência artificial. A contrapartida também foi explícita: a Insilico passou a expandir sua presença na Arábia Saudita e a estruturar bases regionais no Oriente Médio. Não houve filantropia ali. Houve política industrial, participação societária e ancoragem de capacidade em território próprio.


Não é um caso isolado, é doutrina

Quando se olha com atenção, o padrão aparece em toda parte.


A Isomorphic Labs, spin-out do Google DeepMind, captou US$ 2,1 bilhões em maio de 2026, em rodada liderada pela Thrive Capital, com Alphabet e GV, e com três Estados na mesma mesa: MGX, de Abu Dhabi, Temasek, de Cingapura, e o UK Sovereign AI Fund, do Reino Unido. Também aqui o dinheiro entra antes do resultado, para financiar a chegada da empresa à clínica, e não para colher um retorno que já exista.


A MGX, criada em 2024 pela Mubadala e pela G42 e presidida pelo conselheiro de segurança nacional dos Emirados, fechou seu primeiro fundo em US$ 49 bilhões, com posições em OpenAI, Anthropic e xAI, e mira ultrapassar US$ 100 bilhões sob gestão. A Arábia Saudita constrói capacidade doméstica pela HUMAIN, o Catar prioriza infraestrutura, Cingapura compra participação direta em laboratórios de fronteira. Um levantamento recente sobre fundos soberanos resume o movimento com precisão: eles vêm sendo usados por governos para executar estratégias nacionais e construir posições mais fortes nas cadeias globais de valor, e o estudo mapeou doze novos veículos, incluindo Irlanda, Grã-Bretanha, Botsuana e Espanha.


O desenho britânico merece atenção particular, porque é o mais transferível para países que não têm dezenas de bilhões disponíveis. O UK Sovereign AI Fund investe em participação societária como um fundo de venture capital, com mandato explícito de gerar retorno ao contribuinte. Mas o cheque é a menor parte da oferta. Junto com ele vão até 1 milhão de horas de GPU nos supercomputadores nacionais, vistos acelerados para trazer talento internacional, acesso a bases de dados nacionais curadas e acesso a contratos públicos.


Isso não é fomento. É um pacote de operação, que endereça simultaneamente capital, computação, talento e primeiro cliente, precisamente os quatro pontos em que uma deep tech de saúde costuma morrer. E é um pacote que só o Estado pode montar, porque três dos quatro componentes não estão à venda no mercado.


A contrapartida é real, dos dois lados

Convém dizer com todas as letras que nada disso é generosidade estatal, nem risco público sem retorno.


O Estado que entra cedo compra participação em uma empresa que, se atravessar, vale muitas vezes mais. Compra ancoragem territorial, como a Arábia Saudita fez ao vincular sua entrada à expansão da Insilico no país. Compra posição em uma cadeia de valor que vai organizar a saúde das próximas duas décadas. E, no caso britânico, opera sob mandato declarado de retorno financeiro, não sob lógica de subvenção a fundo perdido.


Do lado da empresa, o prêmio é igualmente concreto. A relação entre Lilly e Insilico começou em 2023 com um licenciamento de software, passou por uma parceria de US$ 100 milhões em novembro de 2025 e chegou aos US$ 2,75 bilhões em março de 2026, além do IPO em Hong Kong. A Sanofi fez movimento equivalente com a Earendil Labs, com um acordo em abril de 2025, outro em janeiro de 2026 e participação na própria rodada de captação da empresa. Renovação e escalada valem muito mais do que tamanho, porque a primeira assinatura se conquista com apresentação e a segunda se conquista com resultado.


O que essa arquitetura organiza, portanto, não é uma startup heroica carregando sozinha o peso da inovação radical. É uma divisão de trabalho em que o Estado banca a fase que ninguém mais banca, permanece no capital, e colhe quando a indústria finalmente aparece para comprar a opção. O risco é público na largada e o retorno é compartilhado na chegada.


O risco da inovação: A conversa necessária

Seria injusto dizer que o Brasil não se moveu. Já escrevi aqui sobre o vale da morte da inovação em saúde à brasileira e sobre como os instrumentos se multiplicaram nos últimos anos, entre subvenção econômica, apoio à pesquisa clínica inicial, um fundo de participações dedicado à saúde e programas estaduais que acertaram a lógica de trilha por maturidade tecnológica. Há dinheiro novo e há desenho melhor do que havia.


Mas todos esses instrumentos pertencem a uma mesma família. São formas de financiar projetos. O que Arábia Saudita, Emirados, Cingapura e Reino Unido construíram é de outra natureza: são formas de tomar posição e de pagar parte da conta com ativos que o Estado já possui e que o mercado não vende.


Essa distinção me parece o ponto mais útil para o debate brasileiro neste momento. Um edital financia uma etapa. Uma participação societária acompanha uma trajetória. Um pacote como o britânico resolve, no mesmo ato, o capital que falta, a computação que a empresa não consegue pagar, o talento que ela não consegue trazer e o primeiro contrato que ela não consegue conquistar sozinha.


E vale notar que o Brasil dispõe, sim, de ativos dessa natureza. Temos capacidade computacional pública, temos bases de dados públicas de escala e temos, sobretudo, o maior sistema público de saúde do mundo, cujo poder de compra raramente é tratado como instrumento de inovação, e quase nunca é oferecido a uma empresa nascente como horizonte de primeiro cliente. São ativos que já existem, já foram pagos e permanecem, em grande medida, fora da mesa.


Estamos vivendo um momento raro de atenção pública à inovação radical em saúde no Brasil, com um programa nacional recém-instituído e decisões importantes ainda em aberto sobre como ele será executado. É exatamente nesses momentos que vale olhar para o que os países que decidiram levar esse jogo a sério efetivamente fizeram, e não apenas para o que anunciaram.


Volto, então, à pergunta do título. Quando a indústria farmacêutica não assume o risco da inovação radical, e ela não assume, quem assume é o Estado, nos lugares onde alguém decidiu que valia a pena. Não por generosidade, mas porque entendeu que quem financia a travessia é quem tem direito a estar na chegada. A pergunta que fica é se estamos dispostos a ter essa conversa aqui, enquanto ainda há decisões a tomar.


No Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde, acompanhamos de perto exatamente essa fronteira, entre o que os anúncios prometem e o que os contratos entregam, e entre quem carrega o risco da inovação e quem decide se vai dividi-lo. Se esse tipo de leitura faz sentido para o seu trabalho ou para a sua instituição, ficaremos felizes em conversar.


Marcio de Paula, fundador do Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS

por Marcio de Paula

Fundador do Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS, com mais de 25 anos de experiência em ciências da vida, passou por posições de estratégia e inovação em empresas como Biolab e Ferring Pharmaceuticals, fundou a Rede Brasileira de Inovação Farmacêutica e integra conselhos de inovação em saúde no Brasil. Escreve sobre os caminhos da inovação radical em saúde e sobre como conectar ciência, indústria e política pública.

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