Canetas Emagrecedoras do Paraguai: Meias verdades e o papel da imprensa
- 6 de jul.
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Uma reportagem da Folha de São Paulo, nos últimos dias, comprou de fontes clandestinas e enviou para testes de teor cinco canetas emagrecedoras paraguaias e confirmou que continham o mesmo princípio ativo do Mounjaro. O dado mais grave do teste, uma concentração 60% acima do padrão, ficou no meio do texto. O título ficou com a parte que soa como validação.
A Folha enviou ao CIATox da Unicamp cinco canetas emagrecedoras paraguaias, compradas por redes sociais, vendidas como tirzepatida. A análise confirmou o princípio ativo em todas, e encontrou uma delas, a Gluconex, com concentração 60% acima da referência do Mounjaro.
Acompanho o setor de saúde e inovação no Brasil há décadas, e uma das lições mais custosas desse tempo todo é que, em farmacologia, a palavra "equivalente" pode ser traiçoeira. Ela pode significar identidade molecular, ou pode significar que dois produtos entregam o mesmo efeito terapêutico com a mesma segurança. São coisas completamente diferentes, e a diferença entre elas é exatamente o que separa um medicamento registrado de um produto que qualquer laboratório pode fabricar sem prestar contas a ninguém.
O que a Unicamp realmente provou, e o que ela não provou
A análise confirmou presença de princípio ativo com estrutura molecular compatível à tirzepatida nas cinco marcas testadas, Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex, sem contaminação por semaglutida. É um dado técnico real, obtido com metodologia séria, em parceria com um laboratório de referência. Até aqui, nenhuma objeção ao trabalho científico ou jornalístico.
O próprio estudo, no entanto, reconhece o que não avaliou: impurezas, contaminantes, esterilidade, estabilidade, eficácia clínica. E mesmo dentro do que avaliou, encontrou o dado que deveria ter sido a primeira linha da reportagem: a Gluconex apresentou concentração 60% acima da referência do Mounjaro. Numa classe de medicamento cuja dose é titulada com cautela justamente para evitar efeitos adversos graves, esse desvio não é nota de rodapé técnica. É o tipo de erro que pode levar alguém à emergência com pancreatite aguda, hipoglicemia severa ou desidratação que exige internação.
Identificar o mesmo princípio ativo em um produto não prova que ele é seguro, eficaz, biodisponível ou fabricado com o controle de qualidade que a lei brasileira exige de um medicamento, e tratar essas duas coisas como equivalentes, ainda que sem essa intenção, entrega a quem vende ilegalidade exatamente a validação de que precisa.
Uma reportagem que se propõe a avaliar cinco produtos, encontra um problema sério de dosagem em um deles, e ainda assim reserva o título para "tem o mesmo princípio ativo do Mounjaro", inverteu a hierarquia de risco. Contou primeiro a parte que soa como validação. Guardou para depois a parte que deveria soar como alerta.
O que registro sanitário certifica, e o que uma molécula identificada nunca vai certificar sozinha
Vale explicar essa distinção com cuidado, porque é exatamente aqui que a meia verdade se instala. Registrar um medicamento no Brasil não é provar que ele contém determinada substância. É provar, com dossiê completo, que aquele produto específico, fabricado naquela planta, com aquele processo, entrega o efeito terapêutico esperado com segurança comprovada.
Para um medicamento novo, isso significa anos de ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e multicêntricos, testando o produto em centenas de pacientes antes de qualquer aprovação. Para um genérico ou similar que declare referência a um medicamento já aprovado, o caminho regulatório é outro, mas igualmente rigoroso: estudos de bioequivalência, que medem se o organismo absorve o princípio ativo na mesma velocidade e concentração que o medicamento de referência, somados à comprovação de equivalência farmacêutica.
Em qualquer um dos dois casos, soma-se a exigência de certificação de boas práticas de fabricação, que garante que cada lote saia com a mesma pureza e a mesma dose prometida no rótulo, e, para um injetável como esse, controle rigoroso de esterilidade e de cadeia de frio, porque peptídeos como a tirzepatida se degradam, e podem perder eficácia ou tornar-se inseguros, se mal armazenados ou transportados em qualquer elo da cadeia.
Nada disso é verificado quando um laboratório confirma presença de princípio ativo. A Eli Lilly reforçou exatamente esse ponto em nota: o Mounjaro passou por dez anos de pesquisa clínica antes de chegar ao mercado, e ter a mesma molécula não repete, automaticamente, nenhum desses dez anos de evidência.
Pela Lei 6.360/1976, que dispõe sobre a vigilância sanitária de medicamentos, drogas, insumos farmacêuticos e outros produtos, o registro só é concedido quando a empresa interessada apresenta esse dossiê completo, o que exige solicitação formal de quem fabrica. Nenhum dos laboratórios paraguaios citados na reportagem consta como detentores de registro no Brasil, nem há indício público de que tenham protocolado esse pedido junto à Anvisa. Isso significa que, para quem consome, esses produtos permanecem exatamente onde estavam antes do teste da Unicamp: sem qualquer garantia regulatória sobre o que chega dentro da caneta, lote a lote.
Se a pergunta que importa é se aquele frasco específico, daquele lote específico, tem a dose que o rótulo promete, sem contaminação, mantido na temperatura certa desde a fabricação até a geladeira de quem vai usar, nenhum teste feito até hoje respondeu isso para esses produtos. E o único dado de dosagem que existe, a concentração 60% acima do esperado numa das cinco marcas, aponta na direção contrária à confiança, não a favor dela.
Onde a meia verdade vira munição
Aqui está o que mais preocupa, e o motivo de eu insistir nesse tema. Uma meia verdade tecnicamente correta, mas incompleta, é o material bruto favorito de quem lucra com ilegalidade em saúde. "Tem o mesmo princípio ativo do Mounjaro, confirmado pela Unicamp" é uma frase que qualquer influenciador de rede social pode citar, isolada de qualquer ressalva, como prova de legitimidade. E já está acontecendo.
Revisei publicações que circularam depois da reportagem, reproduzindo, quase frase por frase, uma peça de opinião sobre o tema, repetindo os mesmos números e a mesma conclusão como se fosse análise pessoal original, sem uma única ressalva sobre o que a análise da Unicamp de fato não provou. É assim que uma meia verdade nasce em laboratório, passa por manchete de jornal e chega ao consumidor final já purificada de qualquer nuance, carregando a credibilidade emprestada de uma universidade pública e de um grande veículo de imprensa.
O Brasil vive fila e preço alto por uma classe de medicamento em disparada de demanda, terreno fértil para que uma meia verdade tecnicamente correta seja tratada, por quem lucra com ilegalidade, como prova de segurança que ela nunca foi.
Esse é o combustível exato de que se alimenta quem lucra com a confusão. A operação Heavy Pen, conduzida pela Anvisa em parceria com a Polícia Federal, apreendeu mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulada irregularmente e identificou R$ 4,8 milhões em transações suspeitas, volume suficiente para produzir mais de 1 milhão de canetas injetáveis. Isso não é comércio informal inofensivo. É cadeia de distribuição organizada, e ela se beneficia exatamente do tipo de meia verdade que uma manchete mal calibrada ajuda a espalhar, ainda que sem essa intenção.
O papel que caberia ao jornalismo de saúde, e à comunicação regulatória
Não escrevo isso para acusar a Folha de má-fé, nem quero que soe dessa forma. Testar esses produtos em parceria com um laboratório de referência como o CIATox é jornalismo investigativo sério, do tipo que o Brasil precisa de mais, não de menos. O problema não está em ter feito a reportagem. Está em como ela hierarquizou o que encontrou, e essa é uma responsabilidade que cresce, não diminui, quando o assunto é medicamento e o público é vasto.
Jornalismo de saúde não deveria existir para confirmar uma hipótese isolada, otimizada para gerar alcance. Deveria existir para instruir decisão, o que exige apresentar cada achado com o mesmo peso das suas limitações. Dizer que se encontrou o princípio ativo certo, sem dizer, com igual destaque, que isso não prova que o produto seja seguro, puro, corretamente dosado ou fabricado com o controle de qualidade que a lei exige, não é mentir. É entregar uma verdade parcial, num tema em que verdade parcial tem consequência clínica direta.
Cabe também à comunicação regulatória parte dessa responsabilidade. A distinção entre identidade molecular e segurança registrada é básica na prática sanitária e quase invisível fora dela, e essa explicação hoje só circula em nota técnica e resolução no Diário Oficial. Precisaria circular onde o público está lendo, com a mesma frequência e o mesmo alcance de uma manchete que viraliza.
O que fica
Ter o mesmo princípio ativo não é ter o mesmo remédio. Enquanto essa frase não se tornar prática padrão, tanto na cobertura jornalística quanto na comunicação pública da regulação sanitária, meias verdades bem-intencionadas vão continuar sendo o insumo favorito de quem lucra com a saúde de quem só queria emagrecer com segurança.
Aqui no Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS, acompanhamos de perto os pontos de tensão entre inovação, regulação e comunicação em saúde no Brasil, porque é nessa interseção que meias verdades se tornam risco real de saúde pública. Quer discutir como sua organização comunica ciência e segurança num mercado disputado por desinformação? Fale com o time do IBIS.
Fontes: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Agência Brasil, Interfarma.

por Marcio de Paula
Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS




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