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Comprimido ou injetável: quem vai liderar o mercado global da obesidade?


caneta emagrecedora versus comprimido oral - mercado global da obesidade

No início de 2026, a Novo Nordisk colocou no mercado norte-americano o Wegovy em comprimido (semaglutida oral, uso diário), com preço de entrada anunciado em US$ 149/mês para doses iniciais, escalonamento para doses maiores e ajuste previsto a partir de 15 de abril. Esse movimento ajuda a deixar nítida uma transição maior que a simples extensão de linha: o mercado global de obesidade está virando um jogo de liderança em escala, em que “comprimido versus injetável” é apenas a superfície de uma disputa mais ampla, por acesso, capacidade produtiva, canais de distribuição e permanência em tratamento.


A pergunta que começa a dominar a categoria é direta: quem conseguirá combinar resultado clínico robusto com acesso sustentável em grande escala? Em um campo de uso crônico e demanda massiva, a liderança não se sustenta apenas com dados de ensaio clínico: ela depende de uma arquitetura inteira de produto, preço, distribuição e continuidade terapêutica.


A corrida mudou de fase: de eficácia para escala

Nos primeiros anos do “boom” dos GLP-1, a conversa pública girou em torno de “funciona?”. Em grande medida, o setor já atravessou essa etapa. Agora, o desafio é menos glamouroso e mais determinante: escalar com sustentabilidade.


Escala, aqui, significa três coisas ao mesmo tempo. Primeiro, produzir volume suficiente (e com regularidade). Segundo, chegar ao paciente pelos canais que realmente convertem demanda em tratamento. Terceiro, manter o uso por tempo suficiente para que o benefício não se transforme num ciclo de “perde e ganha” caro, clínica e economicamente.


É nesse ponto que a forma farmacêutica vira estratégia. O comprimido não é apenas conveniência; pode ampliar o mercado endereçável e abrir caminhos de distribuição e preço que o injetável não abre com a mesma facilidade. Mas ele também cria novas exigências de uso e novos desafios de adesão no mundo real.


“Comprimido vs. injetável” virou disputa por liderança pelo mercado global de obesidade?

A Novo Nordisk foi protagonista na consolidação da categoria moderna. Mas, nos últimos anos, a Eli Lilly ganhou espaço com a tirzepatida (Zepbound/Mounjaro), apoiada por forte percepção de eficácia. Um dado amplamente citado é o resultado do SURMOUNT-1: perda média próxima de 20,9% em 72 semanas no regime de maior dose (em comparação com placebo, sob condições controladas).


Quando a competição entra nesse patamar, a resposta natural não é apenas “ser mais potente”. É disputar também o que decide adoção em larga escala: forma, acesso, canal e retenção. A cobertura internacional descreve a aposta do Wegovy oral como voltada a atrair consumidores que pagam diretamente, com presença em grandes redes e plataformas digitais/telemedicina, além de operação própria de farmácia.


Essa mudança é decisiva: parte da disputa deixa de acontecer exclusivamente no consultório e passa a acontecer no varejo e no digital. Em mercados maduros, quem controla o caminho até o paciente e reduz atritos de início e continuidade, tende a levar vantagem, mesmo quando os concorrentes são clinicamente excelentes.


“Oral” não é sinônimo de facilidade automática

É intuitivo pensar que comprimido é sempre mais fácil do que injetável. Para muita gente, será: agulhas têm barreiras psicológicas e práticas. Mas o Wegovy oral exige um ritual diário específico, que pode virar um atrito comportamental relevante.


Segundo a rotulagem aprovada pela FDA, o comprimido deve ser tomado em jejum, com pequena quantidade de água, e é preciso esperar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber outras bebidas ou tomar outros medicamentos orais. Isso parece detalhe, mas tratamentos crônicos são feitos de detalhes. Para quem já usa outros medicamentos pela manhã, por exemplo, essa janela pode complicar a rotina.


O ponto é que o formato “oral” remove um obstáculo (injeção), mas pode criar outro (disciplina diária rígida). E, à medida que a categoria amadurece, o mercado tende a premiar menos “quantos começam” e mais “quantos permanecem”, porque permanência é o que transforma eficácia em benefício sustentado.


O que os dados de eficácia mostram (e o que não resolvem)

Os resultados da semaglutida oral em dose alta foram publicados no New England Journal of Medicine (OASIS 4), com redução de peso superior ao placebo em condições controladas e eventos gastrointestinais frequentes (padrão comum nessa classe). A Novo Nordisk também destacou, em comunicado corporativo, números de leitura direta: em uma abordagem que considera aderência, cita perda média de 16,6%, e afirma que cerca de um terço dos participantes atingiu 20% ou mais de perda de peso.


Esses dados sustentam a tese de que o comprimido não é apenas “conveniente”: ele pode ser competitivo em resultado para uma parcela relevante de pacientes. E isso importa porque, em mercados grandes, “bom o suficiente + mais acessível + mais escalável” pode ser uma combinação poderosa.


Mas os dados de perda de peso, sozinhos, não encerram o debate. Em sistemas de saúde e na vida real, a pergunta se desloca para manutenção do benefício, segurança no longo prazo e custo total. Quanto mais a categoria cresce, mais ela passa a ser julgada por um conceito duro e inevitável: valor sustentado, e não apenas efeito inicial.


A necessidade não atendida que pode definir a próxima década: manutenção

Obesidade é condição crônica. Isso impõe um dilema prático: se o efeito depende de continuidade, como desenhar um tratamento que seja viável por anos, para pessoas e sistemas?


A extensão do estudo STEP 1 mostrou reganho de peso e reversão de parte dos ganhos metabólicos após interrupção da semaglutida. Sínteses recentes reforçam o mesmo sentido: interromper a terapia tende a levar à perda gradual dos benefícios ao longo do tempo. Uma cobertura da Reuters, baseada em publicação no BMJ, descreve esse padrão como consistente na literatura.


Isso muda o centro de gravidade do mercado. A corrida deixa de ser apenas por terapias mais potentes e passa a incluir soluções para sustentar benefício: acompanhamento clínico, manejo de eventos adversos, estratégias de longo prazo e, possivelmente, combinações terapêuticas. Em termos de mercado, é aqui que a liderança pode migrar de “melhor resultado no estudo” para “melhor capacidade de manter pessoas bem tratadas no mundo real”.


A demanda é epidemiológica, não “tendência de consumo”

Globalmente, a OMS estima que cerca de 16% dos adultos eram obesos em 2022. No Brasil, uma fonte anual amplamente usada para monitorar fatores de risco nas capitais é o Vigitel — Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, do Ministério da Saúde. Em termos simples, é um levantamento recorrente que acompanha indicadores ligados a doenças crônicas. Pela série histórica, a frequência de obesidade em adultos nas capitais subiu de 11,8% (2006) para 25,7% (2024).


Esse pano de fundo explica por que a categoria se tornou disputa industrial global: trata-se de uma condição prevalente, associada a comorbidades e custos relevantes. Quando a disputa vira escala, a pergunta muda em cada país: quem consegue reduzir custo, ampliar oferta e construir acesso sem comprometer a sustentabilidade orçamentária?


Brasil: quando a liderança global encontra a barreira do acesso e a indústria nacional entra no jogo

Nos EUA, o Wegovy oral chega com preço de entrada definido e uma arquitetura de canais para acelerar adoção. No Brasil, o cenário é mais restritivo: o custo mensal dessas terapias no varejo segue fora do alcance da maioria e o SUS ainda não incorporou semaglutida/liraglutida para obesidade.


A Conitec recomendou ao Ministério da Saúde não incorporar liraglutida e semaglutida no SUS, mencionando, entre outros pontos, um impacto financeiro estimado em R$ 8 bilhões por ano. No varejo, a distância entre necessidade e acesso é concreta: como referência, o Wegovy 2,4 mg aparece em grandes redes em torno de R$ 1.699 em condições promocionais (com preço cheio maior).


O que muda no Brasil e merece entrar no radar é que a discussão deixa de ser apenas “preço alto” e passa a incluir capacidade de oferta e competição local. A EMS, por exemplo, já entrou no segmento com produtos à base de liraglutida (canetas injetáveis) e vem comunicando uma estratégia de produção nacional e presença em grandes redes, com preços divulgados a partir de R$ 307,26 em algumas apresentações. Isso não resolve o problema de acesso em obesidade por si só, mas sinaliza uma mudança importante: começa a existir um “segundo eixo” de pressão competitiva, vindo de dentro do país.


Além disso, EMS e Fiocruz formalizaram acordos de transferência de tecnologia para produção nacional de liraglutida e semaglutida, com a narrativa explícita de ampliar capacidade produtiva e reduzir dependência externa em medicamentos usados em diabetes e obesidade. Se essa rota amadurecer, ela pode ter um efeito estruturante: mais oferta local tende a aumentar concorrência e, com o tempo, criar condições mais realistas para discutir ampliação de acesso e eventual reabertura do debate de incorporação, não por “boa vontade”, mas por viabilidade econômica.


Há ainda um componente jurídico-industrial no horizonte: decisões recentes no STJ mantiveram o vencimento da patente da semaglutida no Brasil no prazo originalmente previsto, em março de 2026. Isso não significa queda automática de preço no dia seguinte, mas costuma acelerar movimentos de concorrentes e investimentos em versões equivalentes e pode reposicionar o Brasil como campo relevante na disputa de escala, especialmente se houver capacidade produtiva e estratégia de canal.


Em resumo, o Brasil segue com uma barreira de acesso dura, mas não está parado no tabuleiro. A entrada de empresas nacionais e a agenda de produção local sugerem um caminho possível, ainda incerto, e cheio de condicionantes, para que a categoria deixe de ser um mercado restrito e se aproxime de uma discussão real de equidade.


O que observar daqui para frente

O barulho do lançamento passa rápido. Os sinais estruturais ficam. Quatro perguntas tendem a orientar a próxima fase:


  1. Qual será o preço efetivo ao paciente, na prática (e não apenas o preço anunciado)?


  2. Quanta gente permanece em tratamento após 6–12 meses, especialmente com rotinas de uso mais exigentes?


  3. Como a concorrência em formatos (orais e injetáveis) vai reposicionar acesso e custo?


  4. Como o debate de valor (benefício sustentado, segurança, custo no longo prazo) vai moldar cobertura, incorporação e equidade?


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Marcio de Paula, fundador do Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde - IBIS


por Marcio de Paula

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